sábado, 24 de abril de 2010

Viveu como escolheu


Pitute foi embora. Nunca mais vamos vê-lo subindo a rua mancando de uma perna, o pêlo desgrenhado e já meio branco. Pitute era um senhor, um cão maduro, bem vivido, arruaceiro e boêmio; um garanhão que fazia ponto em frente à casa de todas as cadelas no cio no raio de uns dois quilômetros. Nunca teve juízo, era brigão e adorava andar pela rua livre e solto. Sua grande devoção era para com seu dono, mas o que amava mesmo era a liberdade. Muitas vezes ficou de vigia no nosso portão quando Malu estava no cio, e era um Don Juan implacável, mas fora dessa época era um colega que a defendia quando um cachorro vadio se aproximava com muita intimidade. Pitute terminou sua vida da maneira que escolheu viver, sem meias medidas, nunca esperando uma velhice tranqüila e cheia de dores. Entregou sua alma depois de uma luta violenta com um cão muito maior para ganhar uma dama.
Quando o via fazendo ponto diante de um portão ou chegando à casa de manhãzinha, coçava sua cabeça e o olhava com admiração e dizia pra ele: Se não fosse por tantas obrigações e responsabilidades queria ser como você, Pitute, sem lenço e sem documento. Fique em paz, saudoso Pitute.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Encarando um estranho


Dan Brown é um escritor de sucesso porque mistura com genialidade informação maçante com ficção cheia de correria e violência, como em Código da Vince.
Este é um paradoxo, vivemos evitando a violência, buscando a paz com nossos semelhantes, mas na ficção amamos os tapas, tiros e o terror.
Mesmo os animais evitam a violência. Quando ando na rua com Malu e encontramos um cão desconhecido ela adota uma postura estranha. Pára, olha-o fixamente, e começa a levantar a cabeça vagarosamente até olhá-lo de cima, mesmo ele sendo maior do que ela.
No livro Comportamento Canino achei a explicação: "A postura de cabeça erguida dá ao cão uma aparência maior do que realmente é e com isto ele espera impressionar o oponente e se ver livre de um confronto".
Assim, ao invés de partir para a briga Malu tenta um acordo, sua postura dizendo: sou pequena mas posso ficar bem grande e te dar uma surra, se você, seu cachorro fedorento, chegar um tantinho mais perto de mim e do Adal. Chispa!
Bem, ela é meio agressiva mesmo, mas quem não é?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Os Vira-latas


Malu deve ter uma vaga idéia do que seja um cachorro de rua e reage a presença deles ora botando-os para correr ora se aproximando para cheirar. Como ela anda solta ao meu lado preciso estar sempre ligado pois na gana da perseguição pode atravessar uma rua movimentada.
Muito ciumenta ela me acompanhou atenta no dia que levei um pouco de ração (não a dela que é cara e especial) e água para um vira-lata que se abrigou sob uma marquise. Alguns desses cães levam esta vida vagabunda por terem fugido de casa, mas a maioria é formada por animais abandonados. E sofrem muito, por maus tratos e doenças. Algumas vezes Malu pára olhando um deles como se refletisse em suas dores.