sábado, 24 de abril de 2010

Viveu como escolheu


Pitute foi embora. Nunca mais vamos vê-lo subindo a rua mancando de uma perna, o pêlo desgrenhado e já meio branco. Pitute era um senhor, um cão maduro, bem vivido, arruaceiro e boêmio; um garanhão que fazia ponto em frente à casa de todas as cadelas no cio no raio de uns dois quilômetros. Nunca teve juízo, era brigão e adorava andar pela rua livre e solto. Sua grande devoção era para com seu dono, mas o que amava mesmo era a liberdade. Muitas vezes ficou de vigia no nosso portão quando Malu estava no cio, e era um Don Juan implacável, mas fora dessa época era um colega que a defendia quando um cachorro vadio se aproximava com muita intimidade. Pitute terminou sua vida da maneira que escolheu viver, sem meias medidas, nunca esperando uma velhice tranqüila e cheia de dores. Entregou sua alma depois de uma luta violenta com um cão muito maior para ganhar uma dama.
Quando o via fazendo ponto diante de um portão ou chegando à casa de manhãzinha, coçava sua cabeça e o olhava com admiração e dizia pra ele: Se não fosse por tantas obrigações e responsabilidades queria ser como você, Pitute, sem lenço e sem documento. Fique em paz, saudoso Pitute.

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