sexta-feira, 28 de maio de 2010

Amando viver


Em uma esquina de Agostinho Porto, na Baixada fluminense, vi do outro lado da rua um cachorro magro, de pelo russo desigual, mancando com esforço. A mão direita quebrada o obrigava a tomar impulso com a esquerda e assim, claudicando, avançava trôpego.
Pensei, na hora, em todos os seres vivos que sobrevivem com alguma deficiência e me perguntei: vale a pena viver assim? Será a vida um dom tão maravilhoso que compense uma existência sacrificada? Este pessimismo tem razão de ser, porque nós, que temos um corpo eficiente, tantas vezes nos queixamos ou desistimos de avançar. A existência parece, a estes, só um fardo. E lá estava o magrelo de rabo de rato prosseguindo aos arrancos, queria viver a qualquer custo.
Na esquina oposta parou e abanou o rabo para um homem que parara ali com uma bicicleta de carga. Vi o sujeito falar alguma coisa com uma mulata magra que numa barranca pegava apostas para o jogo do bicho. Vi a cena mas não despregava os olhos do vira-lata, que adotava uma postura de total submissão, como a implorar um pouco de atenção que não fosse um maltrato e, se não fosse pedir muito, um pouco de comida. Deixei minha mala de trabalho na parada e olhei numa mercearia se tinha ração pra vender. Não tinha. O homem da bicicleta foi embora, a mulata se afastou e o cão a seguiu claudicando. Não podia ficar alheio, o trabalho que ficasse pra depois. Atravessei a rua e a chamei: oi, como é que posso dar uma ração para esse cão?
Sabe os jornais, os da TV e os da banca que só falam de gente ruim e suas maldades?, eles nos levam a pensar que todo mundo é bandido, gente ruim e que o mundo está perdido. Mas na vida o que geralmente encontramos são muitas almas boas.
Ela me respondeu: ele apareceu há alguns dias e agora fica por aqui, dorme na minha barraca, dou ração e até um remédio. Só não levo para casa porque já tenho dois lá que me dão um trabalhão.
Olhei-o novamente, tinha a atenção voltada para a mulher, ouvindo suas palavras embevecido, era quase adoração. Elogiei-a e disse como a atitude de comiseração dela apaziguou a minha alma.
Aquele sofredor, enfim, encontrou ajuda. Ia continuar mancando, jamais seria um cão normal, mas tendo encontrado um apoio, atenção, podia suportar melhor seu fardo. Pensei também na sorte da Malu e de todos nós que levamos uma vida sem sofrimentos sérios. Quanto temos de agradecer à Deus ter-nos permitido uma missão mais fácil.
Então, fui cuidar da minha vida.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Há um lugar que gosto de ir


e que Malu se diverte muito, a APAE de Volta Redonda. Aproveito e levo o carro cheio de recicláveis que a associação vende e faz dinheiro. Em um quintal amplo, onde além das construções tem uma horta grande e uma área com mata, Malu corre, procura bichos e sente cheiros estranhos. Mas o melhor é o bom astral do lugar. As crianças com síndrome de Dowm ou com retardo cerebral são alegres e se aproximam dela temerosos mas felizes e ela deixa que passem as mãos em seu cabelo encaracolado e macio.
Em todos os tempos estas pessoas excepcionais, ao invés de ser triste eram inocentemente alegres e faziam os outros rir.
Por isto eu e Malu aguardamos ansiosos o dia de levar reciclados à APAE.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Atacando um estranho

O comportamento canino é imprevisível, mesmo quando se conhece bem o animal como conheço Malu, pois saimos juntos pelas ruas todos os dias há 6 anos, e fico sempre atento a suas reações, vontades e apreensões. Aprendi a antecipar suas ações observando posturas que ela adota. Mas nesta manhã fui surpreendido. Caminhávamos por uma rua de pouco movimento quando ela, ao longe, viu um cão pequeno e novo andando para lá e para cá. Nunca o tínhamos visto. Estava perto de um carro com um pessoal, provavelmente estava solto ali enquanto seus donos conversavam. Malu veio se aproximando devagar, um movimento que significa cautela, mas também indica domínio de território. Bem perto ela parou e o cãozinho se aproximou tímido, cheirou-a e se afastou. Foi aí que me enganei, pensei que Malu tendo permitido sua aproximação o havia aceito. Não, ela achou o maior abuzo: o cãozinho jovem e confiado, estranho e se achando, precisava de uma repreensão. E partiu para o ataque.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Malu está no cio.



Isto é uma complicação. Neste transe ela tem de usar calcinha com absorvente. Descobri que o melhor é o teen, para meninas que começam a menstruar. A dona do petshop disse: Agora vejam, o sr. precisando comprar modess! Pois é, mas sem estar vestida ela sujaria cobertas de cama e sofás. Não pode ficar descoberta.
Desta vez, mais velha, ela aprendeu a controlar a micção da madrugada, porém ao acordar cedo minha primeira tarefa é levá-la a rua. Como ela é muito ciumenta de suas coisas, tirar a calcinha tem de seguir um ritual rápido para evitar uma mordida não intencional. Como é pequena e pesa só 10 kg, abraço-a e a levanto com o braço esquerdo enquanto arranco sua roupa de baixo com a mão direita. Ela a cheira e saimos para o passeio e as necessidades.
Ainda assim, mesmo nos dando tanto trabalho, não compreendo certas pessoas. No mercado encontrei um casal que tem uma poodle que a tempo não vejo quando passamos em frente a casa deles. Perguntei: Cadê a menina de vocês? A mulher disse curta e grossa: Dei, dava muito trabalho.