Em uma esquina de Agostinho Porto, na Baixada fluminense, vi do outro lado da rua um cachorro magro, de pelo russo desigual, mancando com esforço. A mão direita quebrada o obrigava a tomar impulso com a esquerda e assim, claudicando, avançava trôpego.
Pensei, na hora, em todos os seres vivos que sobrevivem com alguma deficiência e me perguntei: vale a pena viver assim? Será a vida um dom tão maravilhoso que compense uma existência sacrificada? Este pessimismo tem razão de ser, porque nós, que temos um corpo eficiente, tantas vezes nos queixamos ou desistimos de avançar. A existência parece, a estes, só um fardo. E lá estava o magrelo de rabo de rato prosseguindo aos arrancos, queria viver a qualquer custo.
Na esquina oposta parou e abanou o rabo para um homem que parara ali com uma bicicleta de carga. Vi o sujeito falar alguma coisa com uma mulata magra que numa barranca pegava apostas para o jogo do bicho. Vi a cena mas não despregava os olhos do vira-lata, que adotava uma postura de total submissão, como a implorar um pouco de atenção que não fosse um maltrato e, se não fosse pedir muito, um pouco de comida. Deixei minha mala de trabalho na parada e olhei numa mercearia se tinha ração pra vender. Não tinha. O homem da bicicleta foi embora, a mulata se afastou e o cão a seguiu claudicando. Não podia ficar alheio, o trabalho que ficasse pra depois. Atravessei a rua e a chamei: oi, como é que posso dar uma ração para esse cão?
Sabe os jornais, os da TV e os da banca que só falam de gente ruim e suas maldades?, eles nos levam a pensar que todo mundo é bandido, gente ruim e que o mundo está perdido. Mas na vida o que geralmente encontramos são muitas almas boas.
Ela me respondeu: ele apareceu há alguns dias e agora fica por aqui, dorme na minha barraca, dou ração e até um remédio. Só não levo para casa porque já tenho dois lá que me dão um trabalhão.
Olhei-o novamente, tinha a atenção voltada para a mulher, ouvindo suas palavras embevecido, era quase adoração. Elogiei-a e disse como a atitude de comiseração dela apaziguou a minha alma.
Aquele sofredor, enfim, encontrou ajuda. Ia continuar mancando, jamais seria um cão normal, mas tendo encontrado um apoio, atenção, podia suportar melhor seu fardo. Pensei também na sorte da Malu e de todos nós que levamos uma vida sem sofrimentos sérios. Quanto temos de agradecer à Deus ter-nos permitido uma missão mais fácil.
Então, fui cuidar da minha vida.


