quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Passando a vida seis vezes mais rápido.

Malu, minha poodle, só sai na rua uma vez ao dia, rodeia uma quadra – ou nem isso – e quer voltar, cansada. O cão é uma companhia maravilhosa para o homem porque além de tudo nos ensina a brevidade da vida. Há onze anos ela chegou, uma bolinha preta da cor do jamelão, e logo era uma garota espoleta que me dava trabalho quando saímos. Corria atrás dos passarinhos e se distraia tentando pegar os pombos. Depois, se tornou uma fêmea séria que olhava os pássaros com desinteresse e não levava desaforo pra casa. Agora é uma senhora com problemas nas cartilagens que vai passear de má vontade. 

Assisti a tudo isso se desenrolar nesses poucos anos. Foi como um filme da minha vida passado seis vezes a velocidade normal. Como veio a existir esse tipo de animal que se encaixa tanto em nossas necessidades humanas?
Os evolucionistas e o criacionistas – estes muito a contragosto – sabem que todos os seres se procriam segundo o código DNA. Não há um DNA para o cão e outro diferente para nós. Todas as espécies tem uma base comum de DNA ao qual se acrescentaram as especificidades de sua estirpe. Nos primeiros anos da teoria da evolução os estudiosos diziam que as espécies se formaram por mutações aleatórias. É como dizer que um cão foi o resultado de um ato fortuito. Depois, perceberam que não podia ser assim, e falaram que havia a necessidade. Era ela que levava um ser a buscar e conseguir mudanças para ocupar um espaço vazio. Os criacionistas não assistiam a tudo isso despreocupados. Também se deram conta de que as espécies precisavam ser explicadas. Disseram, então, que no mundo do Criador ele molda um ser que é necessário existir e essa Palavra faz que o DNA de um animal comece a ser acrescido de novos genes para formar o bicho que faltava. Há outras explicações. 

Acredito que haja um plano universal por trás de tudo, inclusive que nos deu Malu.   

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Rafinha foi embora.

Ontem, perdi um amigo. Eu, Marcus meu amigo e Eliane esposa dele perdemos a companhia de Rafinha.

Há muito muito tempo um sujeito igual a nós deixou que um ser dessa raça se aproximasse dele e de seu acampamento. Jogou-lhe um resto de comida e estabeleceu uma amizade sem igual. Aquele bicho passou a andar com ele por onde fosse. Não falava nada, mas ouvia ele falar. Quando estava caçando ou simplesmente andando, pois um homem sente uma vontade invencível de deixar sua casa e andar, seu amigo ia ao seu lado. E o homem podia falar a vontade, ninguém o mandava calar a boca, ele jogava suas palavras ao vento e quanto mais falava mais o amigo se sentia incluído em sua vida. Se num dia triste o homem se sentisse perdido ou com raiva e descontasse no amigo – esbravejando com ele ou até mesmo chutando-o – ele não ia embora, ficava ali em volta até seu dono se acalmar e sentir vontade de passar a mão em suas costas. Dizem que o ser humano foi se humanizando com o tempo e acredito firmemente que o seu amigo de quatro patas foi fator importante neste aprendizado. Um cachorro ao lado da gente é uma coisa mágica.
Fiquei pouco tempo com Rafinha, mas o vi pequeninho e sentia prazer de passar a mão em sua cabeça quando ele ficava de pé na gradinha que separa a área de serviço da cozinha da bela casa de Florianópolis. 

Fiquei com pena dele estar amarrado longe da gente enquanto comíamos um churrasco, bem no dia seguinte ao que eu e Marcus subimos a serra do Rio do Rastro. Mas não tinha outro jeito, ele não podia ficar solto andando em volta da gente porque seu irmão Berluscone, o bonitão, também estava ali e eles - às vezes só pelo olhar de Marcus para um deles - brigavam numa explosão de raiva. Então, levantava e ia dar um pedacinho de carne pra ele. 

Rafinha. Partiu tão cedo, viveu tão pouco.
Num momento de sentimentalismo chego a pensar que Deus, o Criador, bolou fazer o cão para nos manter conscientes do envelhecimento e da morte. Cada ano de nossa vida representa seis anos na vida de um cão. Então, em poucos anos o vemos crescer, de um bebê fica um adolescente aborrecente e daí para a velhice é um pulo. Malu já não gosta de ir na rua comigo. Quando tento pegá-la no colo para sair ela rosna. Pulava do chão para cima da cama ou para a poltrona com toda facilidade, agora fica só no chão. Adorava brincar de pegar brinquedos. Jogava o Cebolinha pra lá e ela corria, atirava pro outro lado e ela saia voando. Hoje, com uma idade próxima da minha, deve estar com 69 anos, detesta essa brincadeira. Até pra me fazer a vontade ela corre, pega o Batatinha, mas rosna se vou pegá-lo. Quando ela era um cãozinho pretinho fiz as contas e pensei: Malu vai ficar comigo até eu completar 75 anos; mas já penso que será melhor pra ela ir embora daqui há três anos. Não quero vê-la sofrer.


Meu amigo Marcus entrou debaixo da mesa onde Rafinha foi se deitar, ou se esconder pra ficar sozinho, sofrendo sem incomodar ninguém. E ali, passando a mão em sua barriga e vendo-o respirar com dificuldade por causa da pneumonia, o viu dar seu último suspiro. Rafinha foi embora.