Ontem, perdi um amigo. Eu, Marcus meu amigo e Eliane esposa
dele perdemos a companhia de Rafinha.
Há muito muito tempo um sujeito igual a nós deixou que um ser
dessa raça se aproximasse dele e de seu acampamento. Jogou-lhe um resto de
comida e estabeleceu uma amizade sem igual. Aquele bicho passou a andar com ele
por onde fosse. Não falava nada, mas ouvia ele falar. Quando estava caçando ou
simplesmente andando, pois um homem sente uma vontade invencível de deixar sua
casa e andar, seu amigo ia ao seu lado. E o homem podia falar a vontade,
ninguém o mandava calar a boca, ele jogava suas palavras ao vento e quanto mais
falava mais o amigo se sentia incluído em sua vida. Se num dia triste o homem
se sentisse perdido ou com raiva e descontasse no amigo – esbravejando com ele
ou até mesmo chutando-o – ele não ia embora, ficava ali em volta até seu dono
se acalmar e sentir vontade de passar a mão em suas costas. Dizem que o ser
humano foi se humanizando com o tempo e acredito firmemente que o seu amigo de
quatro patas foi fator importante neste aprendizado. Um cachorro ao lado da
gente é uma coisa mágica.
Fiquei pouco tempo com Rafinha, mas o vi pequeninho e sentia
prazer de passar a mão em sua cabeça quando ele ficava de pé na gradinha que
separa a área de serviço da cozinha da bela casa de Florianópolis.
Fiquei com
pena dele estar amarrado longe da gente enquanto comíamos um churrasco, bem no
dia seguinte ao que eu e Marcus subimos a serra do Rio do Rastro. Mas não tinha
outro jeito, ele não podia ficar solto andando em volta da gente porque seu
irmão Berluscone, o bonitão, também estava ali e eles - às vezes só pelo olhar
de Marcus para um deles - brigavam numa explosão de raiva. Então, levantava e ia
dar um pedacinho de carne pra ele.
Rafinha. Partiu tão cedo, viveu tão pouco.
Num momento de sentimentalismo chego a pensar que Deus, o
Criador, bolou fazer o cão para nos manter conscientes do envelhecimento e da
morte. Cada ano de nossa vida representa seis anos na vida de um cão. Então, em
poucos anos o vemos crescer, de um bebê fica um adolescente aborrecente e daí
para a velhice é um pulo. Malu já não gosta de ir na rua comigo. Quando tento
pegá-la no colo para sair ela rosna. Pulava do chão para cima da cama ou para a
poltrona com toda facilidade, agora fica só no chão. Adorava brincar de pegar
brinquedos. Jogava o Cebolinha pra lá e ela corria, atirava pro outro lado e ela
saia voando. Hoje, com uma idade próxima da minha, deve estar com 69 anos,
detesta essa brincadeira. Até pra me fazer a vontade ela corre, pega o
Batatinha, mas rosna se vou pegá-lo. Quando ela era um cãozinho pretinho fiz as
contas e pensei: Malu vai ficar comigo até eu completar 75 anos; mas já penso
que será melhor pra ela ir embora daqui há três anos. Não quero vê-la sofrer.
Meu amigo Marcus entrou debaixo da mesa onde Rafinha foi se
deitar, ou se esconder pra ficar sozinho, sofrendo sem incomodar ninguém. E
ali, passando a mão em sua barriga e vendo-o respirar com dificuldade por causa
da pneumonia, o viu dar seu último suspiro. Rafinha foi embora.

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