terça-feira, 4 de agosto de 2015

Rafinha foi embora.

Ontem, perdi um amigo. Eu, Marcus meu amigo e Eliane esposa dele perdemos a companhia de Rafinha.

Há muito muito tempo um sujeito igual a nós deixou que um ser dessa raça se aproximasse dele e de seu acampamento. Jogou-lhe um resto de comida e estabeleceu uma amizade sem igual. Aquele bicho passou a andar com ele por onde fosse. Não falava nada, mas ouvia ele falar. Quando estava caçando ou simplesmente andando, pois um homem sente uma vontade invencível de deixar sua casa e andar, seu amigo ia ao seu lado. E o homem podia falar a vontade, ninguém o mandava calar a boca, ele jogava suas palavras ao vento e quanto mais falava mais o amigo se sentia incluído em sua vida. Se num dia triste o homem se sentisse perdido ou com raiva e descontasse no amigo – esbravejando com ele ou até mesmo chutando-o – ele não ia embora, ficava ali em volta até seu dono se acalmar e sentir vontade de passar a mão em suas costas. Dizem que o ser humano foi se humanizando com o tempo e acredito firmemente que o seu amigo de quatro patas foi fator importante neste aprendizado. Um cachorro ao lado da gente é uma coisa mágica.
Fiquei pouco tempo com Rafinha, mas o vi pequeninho e sentia prazer de passar a mão em sua cabeça quando ele ficava de pé na gradinha que separa a área de serviço da cozinha da bela casa de Florianópolis. 

Fiquei com pena dele estar amarrado longe da gente enquanto comíamos um churrasco, bem no dia seguinte ao que eu e Marcus subimos a serra do Rio do Rastro. Mas não tinha outro jeito, ele não podia ficar solto andando em volta da gente porque seu irmão Berluscone, o bonitão, também estava ali e eles - às vezes só pelo olhar de Marcus para um deles - brigavam numa explosão de raiva. Então, levantava e ia dar um pedacinho de carne pra ele. 

Rafinha. Partiu tão cedo, viveu tão pouco.
Num momento de sentimentalismo chego a pensar que Deus, o Criador, bolou fazer o cão para nos manter conscientes do envelhecimento e da morte. Cada ano de nossa vida representa seis anos na vida de um cão. Então, em poucos anos o vemos crescer, de um bebê fica um adolescente aborrecente e daí para a velhice é um pulo. Malu já não gosta de ir na rua comigo. Quando tento pegá-la no colo para sair ela rosna. Pulava do chão para cima da cama ou para a poltrona com toda facilidade, agora fica só no chão. Adorava brincar de pegar brinquedos. Jogava o Cebolinha pra lá e ela corria, atirava pro outro lado e ela saia voando. Hoje, com uma idade próxima da minha, deve estar com 69 anos, detesta essa brincadeira. Até pra me fazer a vontade ela corre, pega o Batatinha, mas rosna se vou pegá-lo. Quando ela era um cãozinho pretinho fiz as contas e pensei: Malu vai ficar comigo até eu completar 75 anos; mas já penso que será melhor pra ela ir embora daqui há três anos. Não quero vê-la sofrer.


Meu amigo Marcus entrou debaixo da mesa onde Rafinha foi se deitar, ou se esconder pra ficar sozinho, sofrendo sem incomodar ninguém. E ali, passando a mão em sua barriga e vendo-o respirar com dificuldade por causa da pneumonia, o viu dar seu último suspiro. Rafinha foi embora.   


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